A cultura organizacional não é aquilo que está no quadro da recepção traduzida em valores, e sim aquilo que acontece quando ninguém está olhando. Essa frase carrega um desconforto necessário, porque ela tira a cultura do discurso bonito e coloca a responsabilidade no comportamento real (assim como na imagem deste post). Missão, visão e valores são importantes, mas sozinhos não constroem cultura, eles apenas declaram intenção.

A cultura verdadeira nasce nos bastidores (quando ninguém está observando), na forma como decisões difíceis são tomadas, como por exemplo: demitir, cortar custos, priorizar projetos, dizer “não” a clientes, mudar rota, é neste momento que a cultura aparece (“aqui é assim que resolvemos problemas”), no que é tolerado em silêncio (a cultura não é criada apenas pelo que se cobra, mas principalmente pelo que se aceita calado), no que é cobrado com consistência pois a consistência contrói identidade, no que é ignorado repetidamente, a bagunça vira padrão, o atraso vira rotina e o improviso vira método (a empresa não muda porquê aprendeu que não precisa mudar). É aí que a comunicação deixa de ser verbal e passa a ser comportamental (quando as pessoas não escutam o que você fala, elas observam o que você faz).

Onde a cultura realmente se forma

A empresa inteira observa a liderança, mesmo quando ela acha que não está sendo observada. Seja em como reage sob pressão, se mantém prioridades quando surgem urgências, se protege pessoas ou resultados a qualquer custo e se resolve problemas ou empurra para depois. Cada uma dessas atitudes envia uma mensagem clara, mesmo sem palavras. Esse é o ponto onde a comunicação se torna prática, onde o “walk the talk” deixa de ser conceito e vira rotina.

Case de Sucesso:

Certo dia, estive com outros executivos realizando uma visita técnica em uma grande empresa, onde o programa de Excelência Operacional encontra-se em alto nível de maturidade e o pilar de Segurança é tratado com muito rigor.

Quando estávamos saindo da visita, já nos direcionando para a portaria, fomos surpreendidos por um operador de comboio (operador de carro elétrico com rebocadores) que passava por uma das ruas internas. O operador apontava e chamava a atenção de um dos executivos que estava ao final da fila e falava ao celular enquanto caminhava pela calçada.

Todos ficamos paralisados com a chamada de atenção direcionada ao executivo, e a “bronca” não parou por aí. O operador ainda direcionou o alerta ao gestor da empresa que nos acompanhava até a saída, questionando se ele havia repassado a todos ali presentes as orientações de segurança da empresa, sem baixar em nenhum momento o tom de importância sobre o fato detectado. O gestor afirmou que havia repassado as orientações, agradeceu ao operador pela chamada de atenção e seguimos até a saída em silêncio absoluto.

Quando identificamos operadores como este, que estão em nível de não apenas cuidar de si, mas também cuidar dos outros, sem que ninguém tenha solicitado, sem distinguir hierarquia, sem qualquer barreira, apenas a intuição comprometida de identificar facilmente que algo esta errado e corrigir rapidamente, ali naquela empresa pude presenciar que a Cultura da Segurança não está apenas nas apresentações de ppt, está na atitude das pessoas.

Liderança: o principal canal de comunicação da empresa

O líder é o maior veículo de comunicação da organização, não pelo que fala, mas pelo que pratica. Ele comunica quando, chega preparado (sem improvisos), cumpre combinados, respeita processos, enfrenta problemas e sustenta decisões impopulares. Não existe projeto de cultura, existe disciplina cultural, pois é construída todos os dias, nas pequenas decisões, nos momentos sem plateia, quando ninguém está olhando.

A comunicação, cultura e execução acaba sendo um ciclo inseparável, pois a comunicação gera entendimento, entendimento gera comportamento e o comportamento repetido gera cultura. Sem execução, comunicação vira discurso, sem cultura, execução vira esforço isolado. Liderar hoje é muito mais sobre coerência do que sobre carisma, muito mais sobre constância do que sobre impacto momentâneo. A liderança de sucesso fala menos, estrutura melhor, executa sempre, sustenta escolhas e constrói exemplo.

Dicas para Executivos que Querem Construir Cultura Pela Ação

  1. Seja claro sobre o que importa e refaça isso todos os dias: A estratégia só entra na rotina quando é traduzida em prioridades concretas. Reforce o que é importante não só em palavras. Decisões de alocação de recursos, metas visíveis, critérios de avaliação, foco em poucas iniciativas que realmente movem a empresa. Comunicação eficaz não é transmitir mais informação, é transmitir clareza sobre o que será acionado;
  2. Decida nas linhas de frente, não apenas na sala de reuniões: Cultura aparece quando decisões difíceis são tomadas, quando você lidera decisões diante de desafios, a organização aprende (go to the gemba – sempre que for necessário), visitar o chão de fábrica ou a operação não deve ser um ritual, deve ser um momento de aprendizado e melhoria. Esse exercício revela aspectos da cultura que relatórios não mostram;
  3. Não ignore repetidos pequenos problemas: As organizações não mudam sozinhas, muitos problemas crônicos são possíveis de serem resolvidos ainda quando são menores, e acredite, muitos deles são facilmente resolvidos apenas em alinhamentos, outros podem ser delegados e organizados em grupos com liderados, principalmente para você avaliar como os problemas são resolvidos;
  4. Rigor nas análises críticas: Cultura forte exige disciplina intelectual, não basta discutir problemas, é preciso analisá-los com método, dados e profundidade. Questionam causas, não só sintomas, use fatos, não achismos, cobre planos consistentes e acompanhe a execução (disciplina na agenda (ritmo) e rigor na análise). Sem rigor analítico, a empresa vive apagando incêndios;
  5. Estruture diálogos que levem à ação: Comunicações que geram ação têm duas características que são o foco em decisão e a ligação direta com prioridades do dia a dia. Evite apresentações que apenas descrevem problemas ou contextualizam, estabeleça cenários, critérios e determine como será monitorada a ação;
  6. Reconheça os operadores que agem sem comando: Cultura verdadeiramente madura não precisa de ordens para fazer o certo, ela tem pessoas que cuidam do ambiente, chamam a atenção para riscos, promovem melhorias, alertam líderes quando percebem algo errado…sem esperar por reconhecimento. Ao reconhecer esses comportamentos espontâneos, você reforça que “Aqui, fazer o certo é responsabilidade de todos.”

Imagem do post

Coletar um lixo na praia representa o quanto a nossa cultura está alinhada às nossas atitudes. A disciplina não é obrigação, é consciência.

Dessa forma, entendemos que o coletivo importa mais do que o indivíduo, pois sabemos que pequenos comportamentos constroem grandes culturas, assim como recolher um lixo na rua, chegar no horário, respeitar filas, atravessar nas faixas de segurança (somente com sinal liberado), cumprir padrões e seguir processos.

Simples. Silencioso. Poderoso.